Parece tudo tão estranho o que
tem acontecido nestes últimos dias. Sim, estranho porque quando se
"perde" uma mãe o normal é sentir dor, revolta, angustia e medo
mas... O que sinto é completamente diferente do habitual. Sinto uma paz
interior enorme, um consolo por ter feito tudo o que podia por ela: por ter
dado a mão quando devia, beijado quando devia, falado quando devia... Sinto que
não deixei nada por fazer à minha mãe... É verdade que durante meses senti medo
misturado com esperança, senti que a vida estava por um fio. É verdade que
naquele Natal de 2016, a notícia do cancro foi como uma bomba caída na minha
vida, mas eu como padre, nesse momento, senti que a minha mãe não precisava da
minha revolta mas da minha esperança. Não precisava de sentir os meus medos, de
ver as minhas lágrimas, mas precisava de mim como um provocador de esperança na
vida dela. Sinto neste momento que vem do Céu uma brisa suave que me acalma e
deixa escrever estas linhas com as ligaduras que nestes dias recebi... Obrigado
a todos os que me ajudaram nesta via sacra. Foi tão especial perceber que se
pode sofrer sorrindo, que se pode ter medo amando, que se pode pensar na morte
como lugar de vida. E tu, se estás a ler estas palavras e chegaste até aqui é
porque me ajudaste e queres compreender o que sinto... A ti especialmente sente
ao ouvido aquele OBRIGADO que apenas um coração em paz te pode dizer.
Ontem naquela igreja da Camacha ,
lugar onde tantas vezes com a mãe celebrei a fé, lugar onde ela cheia de amor,
de orgulho e de paz me viu celebrar a Missa Nova, senti uma leveza enorme...
Senti tanto aquela expressão de Jesus ressuscitado dizendo "A paz esteja
convosco." Senti a Páscoa a acontecer, o mistério de quem, como a minha
mãe, acredita que a nossa vida não é só deste mundo...
A minha mãe e eu preparamos muito
aquele momento, e quer ela quer eu, desejávamos que fosse algo muito especial,
mas não foi especial... Foi divino, foi um claro sinal de Deus agradecendo
todos os que por ela fizeram bem... Ela estava ali, descansadinha, a
"dormir eternamente". A pedir por mim para que não faltasse a coragem
de lhe dizer obrigado a sorrir, de agradecer aos corações que ela cativou, de
ser sinal, naquele momento de dor de que é possível viver a morte como vida!
Obrigado a ti por me ajudares a
sentir que este foi o funeral mais bonito da minha vida!
Mãe descansa em paz, na gloria do Céu olha por mim
para que, acima de qualquer coisa, seja um padre fiel e feliz!
Pe. Pedro Nóbrega
3 de Abril de 2018


